quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Da autobiografia não autorizada de Che Guavira
Capítulo 1
De como Che Guavira foi parar no país do cata-vento Aventuras, venturas e desventuras com muita desenvoltura e jogo-de-cintura na terra do livro e do café Foi preciso ir tão longe pra saber o que é café de verdade! Falemos de mulher bonita Calientes bogotanos Os bogotanos têm muito a nos ensinar de solidariedade e calor humano
Ao ler, no Murro das lamentações, que Bogotá é a terra fabulosa dos livros, fui até lá pra conferir.
Já no aeroporto vi que a senha do cartão internacional fora mudada. Corri à delegacia de atendimento ao turista, pra telefonar ao número no verso mas parece que a atendente ligou ao primeiro número, atendimento a outro país, e a ligação caía. Tive de deixar pra resolver na chegada. A novela mexicana do cartão será contada noutro capítulo.
Sorte que tive a idéia de retirar o máximo, 1000 reais, num caixa eletrônico e converter a dólar, o que me deu uma sobrevida enquanto a novela corria. Em Guarulhos fui a um quiosque de câmbio cuja atendente, Márcia Silva, é sósia de minha antiga correspondente chilena Maria Paz. Até a linha divisória do cabelo, mais à esquerda. Só via que não era porque falava português sem sotaque.
A Colômbia é um país cujo mapa tem a forma dum elegante cata-vento. Observando bem se nota que é uma suástica dextrógira, exatamente o oposto da suástica nazista, que é sinistrógira. A suástica dextrógira é um multimilenar símbolo benéfico, de energia vital. Guardar bem este dado, pra conceitos no capítulo 2.

Distância em linha reta Campo Grande–São Paulo: 896km
São Paulo–Bogotá: 4324km. Total: 5220km.
Bogotá fica num altiplano, 2600m acima do nível marinho, por isso é chamada a cidade da eterna primavera. O clima é tal qual o de Campo Grande no inverno. Nos dez dias ali, 14 a 23 de agosto, só fez frio no domingo 17, com finíssima garoa. No restante um frescor agradável, típico clima serrano.
O aeroporto se chama El Dorado, pois lá também tem essa lenda. A lenda do Eldorado é a lenda nacional colombiana. Tanto que o principal museu da capital é o museu do Ouro, onde li, num painel, que o sujeito que era polvilhado de ouro em pó não era simplesmente enfarinhado, como lemos sucintamente na lenda, mas esfolado e banhado com piche ou betume, não me lembro bem, pra aderir o ouro em pó. Não era só enfarinhar de ouro e mergulhar no lago. A coisa era mais cruel. Espécie de versão pré-histórica do trote de dar banho de melado, jogar pluma e fazer dançar a dança do Passarinho.
No Brasil essa lenda também é marcante, sempre presente nas antologias de lenda. Tanto que a palavra eldorado entrou ao português no sentido de terra prometida de imensa riqueza. A expressão Encontrar o eldorado significa Encontrar o mapa da mina. No extremo sul de Mato Grosso do Sul tem uma cidade chamada Eldorado. É um dos sete municípios abaixo do trópico de capricórnio, portanto fora da zona tropical. Fundado em meado de 1954 pelo astrólogo Omar Nunes Cardoso, recebeu o nome Eldorado por ser terra de grande riqueza explorável. Antes de receber esse nome o pequeno povoado se chamava Colônia Velha.
Na Colômbia também tem a lenda da Mãe-dágua (Madre de Agua). Só que a iara colombiana usa cinto-de-castidade!
Tem também a Chorona (La Llorona), que é tipicamente mexicana e que tem até filmes mexicanos com a personagem.
Tem a lenda de Pilcuán, espécie de hércules andino que matou uma serpente emplumada que é uma simbiose de nossa Boitatá com a hidra de Lerna.
E uma infinidade de seres fantasmagóricos do folclore nacional.
As assombrações folclóricas são muito eróticas e nuas, tudo bem retratado nas compilações de lenda. O que mostra que é uma cultura bem menos contaminada pelo puritanismo do branco católico ou ianque, o que a faz imensamente interessante.
No aeroporto a esteira de bagagem é mais moderna, ampla e inclinada. O bom é que não teve, à saída, o pessoal abrindo bagagem, como no Chile. Colômbia 1x0. Parece que lá não tem a paranóia chilena de entrar zoonose ou algo assim.
O carrinho disponível pra pôr a bagagem não é gratuito, custa 2 dólares. Í! Bola fora! O resultado é todo mundo com mala de rodinha.
Também não tem vã coletiva pra ir do aeroporto ao hotel, mas em táxi dá no máximo 25.000 pesos, cerca de 25 reais.
Os chilenos respondem a tudo Djá. Quer dizer sim, pronto, muito bem. Depois do Obrigado, o brasileiro responde De nada. O colombiano costuma responder Con mucho gusto.
E se faz tudo com muito gosto, mesmo. Não precisa muita indicação de restaurante. Ao acaso se acham serviços excelentes. O difícil é cair num mais-ou-menos. Os preços não são altos como aqui e as porções generosas. O atendimento, então, é excelente.
Em São Paulo, em julho, no primeiro restaurante aonde fui, no centro, ganhei uma tremenda dor de barriga que durou dois dias. Só no terceiro dia pude passear sossegado. Nos dez dias em Bogotá experimentei tudo o que aparecia: Restaurantes chiques ou populares, salgadinho em qualquer esquina, e nem um desarranjo. Nada.
Mas pitaia, nada mais que uma variedade de tuna ou figo-da-índia muito melhorado, tem de comer pouco, porque é laxante.
O guanábano é a graviola (Annona muricata). Um fruteiro, com carrinho estacionado na esquina, vendia helado (sorvete) de graviola, a polpa com semente com creme-de-leite, num pote, servindo num copo cuma concha, dando uma colher de plástico. Servia também suco de chontaduro, que é uma pupunha avermelhada.
Outra fruta exótica é o mamoncillo, parecendo uma guavira grande, cuma semente grande, polpa bem amarela e forte sabor adocicado.
Granadilla é um maracujá muito doce e suave. Mora (amora) é grande e azeda.
Guayaba (goiaba), aguacate ou palta (abacate) e piña (abacaxi) são outras frutas comuns cá e lá.
Nem sombra de água-de-coco.
Almocei no excelente restaurante Puerta de la catedral, perto do museu do Ouro. A espiga de milho tem os grãos maiores e mais tenros, dum amarelo mais claro. O feijão também é mais grosso. Sempre uma fatia de abacate acompanha a porção.
Quando cheguei fui jantar num restaurante próximo. Pedi bagre, que foi acompanhado duma porção de arroz, mandioca e batata fritas, limão e uma xicrinha de ají, um molho a vinagrete apimentado muito bom.
Não vi pimenta curtindo em pote de vidro, in natura nem molho vermelho.
Aqueles tubos comumente com quetichupe, pimenta, mostarda, normalmente tem vários. Um parecia ser vinagre mas era muito denso. Era mel! Taí uma surpresa agradável.
Noutros lugares os tubos tinham mostarda, polpa de abacaxi e doutras frutas.
Na área perto do museu do Ouro uma lanchonete anunciando salgadinho mexicano. Uns tubulares. Gostoso e diferente. Algo que o visitante não deve deixar de experimentar. Até agora todas as vezes que experimentei comida mexicana (uma vez tex-mex em Curitiba) valeu a pena.
De salgadinho (no caso, agridocinho) tem a arepa, em forma chata e em forma de bola, que é adocicada, bem sem-graça. Bem bom é a papa, um grande croquete de batata recheado com arroz-carreteiro e ovo cozido, que se destaca nas vitrines parecendo salpicado com quetichupe. No geral são empanadas, nada mais que variações de esfirra. Se usa muito recheio com arroz, charque, ovo e yuca (mandioca).
Já um restaurante galego era quase só batata.
Cuidado pra não pedir a sem-graça batata cozida ao vapor decorada com queijo derretido.
Caí nessa de experimentar os desconhecidos, yuca e papa, tal qual quem chegou ao nordeste e pediu coisas bem exóticas e desconhecidas: Jerimum, aipim e macaxeira.
Quibe frito só vi numa delicatéssen.
Junto aos salgadinhos há ovo cozido. A vendedora descascou um pra mim. Infelizmente o brasileiro tem muito preconceito contra o pão e o ovo. É que a fartura é mãe da frescura...
Coisa estranha é caixa eletrônico na calçada, diante da rua mesmo, aberto, encostado no muro.
Lá também tem muito panfletista de propaganda, distribuindo propaganda de garota-de-programa, estripetise, etc. Numa lanchonete escolhi uns sabores de empanada pra levar. No fundo da sacola tinha um desses panfletinhos eróticos: Chicas complacentes, etc. O pessoal não pode ver a gente andar sozinho e já acha que é turista sexual.
Só achei difícil achar boas barras de chocolate.
Eu estava no sebo Torre de Babel. Enquanto garimpava nos 4 andares mal passava uma hora e alguém vinha de novo com aquela grande taça de chope cum líquido preto tampado com película. Não era cerveja preta mas café.
— Ai! Café? Detesto café. Até o cheiro me enjoa.
Em ocasião assim tomo um pouco. Experimentei aquele café amargo.
— Nham! Mas não é que este treco é bom? É diferente mas é café! Este sim, merece ser cantado naquele samba-enredo do Salgueiro: Gostoso como um beijo de amor.
Que coisa tão diferente do carvão sabor café daqui. É suave, o pó tem cor de chocolate. Comprei um pacote de café gurmê no museu do Ouro. O pó tem cor de amora em pó. Nada a ver com o carvão que conhecemos. No aeroporto os pacotes são mais baratos mas são outros rótulos.
Tive de ir a Bogotá pra saber o que era café. Igualmente nunca gostei de cerveja. Só vi o que era quando experimentei importada. Kaiser, Antarctica, Brahma, etc, nem de graça, pois meu estômago não é lixeira. Um dia experimentei uma latinha de Crystal e cuspi fora. Parecia feita com soro de coalhada!
O Brasil produz excelente café mas exporta tudo. A melhor carne de MS é exportada. Tudo porque o povo é ignorante e nada exigente. Há famílias que proporcionam o melhor aos filhos. Há outras onde o melhor é só pràs visitas...
Tem de exportar o que sobra, e não impingir rebotalho à população.
No fim do primeiro dia de passeio levei um susto ao ver no espelho uma cara tão rubra. Então fui correndo comprar um filtro-solar. Sou reticente a usar isso no rosto, porque ao suar escorre aos olhos e arde. Mas como o clima não fazia suar não tive esse problema.
Quanto aos famigerados efeitos de altitude, nada senti. Parecia estar aqui mesmo.
O hotel Colombia at home, pequenino e simples, sem desjejum nem nome na fachada, é muito organizado. Já na reserva informa o trajeto, preço máximo do percurso em táxi e oferece taxista de confiança pra buscar o hóspede.
O dizer no logotipo já explica o propósito: Se sentir como em casa. E é o que se percebe no atendimento da dona do hotel, dona Stella. Já mora ali pra atender melhor. Parece que seu trabalho é sua vida, paixão, extensão do cotidiano.
O hotel fica bem no costado da igreja Divino Salvador e duma avenida. No lado oposto, a poucas quadras, a avenida 53, que é um longo centro comercial.
A cidade é bonita e a arquitetura variada. Não é só concreto e asfalto e não tem buraco na rua. No máximo uma depressão com o peso dos ônibus sanfonados, pois nas avenidas principais têm muitos desses luiz-gonzagas. Passeando em táxi não se sente o veículo trepidar, pois não é um asfalto sorvete-moreninha todo remendado como aqui. É calçamento pra valer.
Poucas ruas têm nome. É tudo número, o que facilita muito pesquisar na internete e se localizar presencialmente. A disposição é como numa matriz: Linhas, colunas e diagonais. As calles (ruas) são todas paralelas entre si. Idem as carreras (carreiras), paralelas entre si e perpendiculares às ruas. Portanto não há esquina entre duas ruas nem entre duas carreiras, sempre uma rua e uma carreira, diagonal ou avenida.
O bom é que não existe a mania de mudar nome de rua nem ficar puxando saco de celebridade, o que é uma praga no Brasil. Muito bacana e poético o aeroporto se chamar El Dorado, em vez do tremendo mau-gosto doutor fulano beltrano da silva silveira e tal.
Uma página disse que lá tem o maior número de mulher bonita por metro quadrado que o cara já viu. Pode ser mas ainda acho que Curitiba dá de 10x0.
Os caras lá dizem que Medelim tem mais. O atendente do sebo Merlín disse:
— Á! Medelim é melhor. Cáli. Barranquilha, então é demais. Mas Cartagena, uau!, é o máximo!
No sábado, última passada no Torre de Babel, tive de recusar a última oferta de café. Como não tenho hábito de tomar, a cafeína já estava alta no sangue, por isso as fotos tive de tirar várias vezes, pois a mão tremia. Na próxima foto antes e café depois. Mais um pouco e já teria de recorrer às chicas complacentes, hehehehe.
Mas deve ser o café o causador de tal densidade populacional. Fui ver uma caneta lêiser, pois lá não é proibido, e num canto da loja um casal adolescente num tremendo amasso.
— Como son calientes los colombianos!
A culpa é do café, na falta do tereré...
Sobre a excelência do atendimento bogotano, no próximo capítulo.


terça-feira, 2 de setembro de 2014

Colaboração de Renato Kern:
Caro Mário
Estou enviando esta colaboração de uns scans do Spirit de 1946. A aventura é localizada na floresta Amazônica e acaba no Rio de Janeiro.
Fiz a tradução e acrescentei uns comentários no fim.


sábado, 9 de agosto de 2014

Cada capa tem um erro
Consegues achar?
Cada portada tiene un error
¿Consigues hallar?
Almir acertou a primeira capa
Sr. Bondius só faltou acertar o erro no nome da capa 2 mas achou outro. Então 2 erros da capa 2.
Anônimo percebeu Lawernce em vez de Lawrence
Será que todos são ingleses?

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Crônicas paulistescas
Da autobiografia não autorizada de Che Guavira
À coleção Adeene neles!
 
2 comentários:
São Paulo tem cartão integrando ônibus, metrô e trem já há um bom tempo. O fato é que ainda persistem, como em toda parte do mundo, outros modos de pagamento.
É verdade
Aliás, ao que sei, foi São Paulo que lançou primeiro esse sistema no Brasil.
Não sei se copiado dalgum país.
Neste país se copia tudo de fora: Música, roupa, tênis esportivo, pircem, tipo de restaurante, corte de cabelo, comportamento pessoal, etc.
Pois é, Anônimo. Pena que não copiamos o miss nude nem o Show your tits. Só copiamos porcaria.
Em Santiago não vi taxista com maquininha de cartão. Aqui todos os que peguei têm. Em Sampa só um que peguei não tinha.
Aproveitar a viagem pra conhecer um correspondente é um lance legal. Claro que tem vez que se descobre que em vez da pessoa real se estava conversando com personagem. Mas é um fato da vida.
Messias, dono do maior sebo, simpatia zero. Mais um vendedor de parafuso.
Um rápido passeio no bairro japonês da Liberdade. Numa frutaria aqueles nabos brancos gigantes cujo nome é daicón (daicão, por favor!), algo parecendo um pimentão gigante, um pepino todo enrugado e com sementes vermelhas, uma cidra amarela gigantesca. Mas não dizem que japonês é tudo miniatura? Ou esses são japoneses de Itu?
A estação da Luz, onde saem os trens a Jundiaí e ao alto da serra do Mar, Rio Grande e serra de Paranapiacaba (Se fosse Paranapiaçava seria onde fica Vassouras, hehehe).
O trem a Campinas já-era. Fizeram a mesma burrice daqui: A estação virou museu!
Joanco disse que levei chuva a Sampa.
Mas na volta trouxe frio.
Toda a região é caracterizada por ladeira, pois fica perto da serra do Mar. Quando estive em Guarulhos, em 1989, na casa do irmão de meu cunhado, sobre o fato meu cunhado disse a sua cunhada Ana: A cidade é toda acidentada. Ana respondeu: Mas também, o pessoal anda feito louco!
Voltando a falar sobre o Mercadão, como é ruim a peixaria do Mercadão daqui. Mesmo as poucas peixarias da cidade são uma lástima. Aqui, perto do Pantanal, deveria ser a terra do peixe. Mas o povo não tem hábito de comer peixe porque só hipermercado tem, mesmo assim sofrivelmente. E os comerciantes não oferecem porque o povo não tem hábito de comer. Um eterno ciclo vicioso. Poderiam usar o trem do Pantanal pra fazer um corredor de pescado, trazendo a produção corumbaense.
O Mercadão não deveria ter só espaço àqueles descendentes indígenas que ficam ali ao léu, sem capacitação e assistência. Deveria ser um espaço pra todos os quintais disponibilizarem os frutos excedentes. O que temos é mera curiosidade superficial ao turista, de modo muito amador.
Deveria ter um balcão pra informação turística dentro do Mercadão.
Mas aqui é uma terra provinciana de corpo e alma, com mentalidade parada no começo do século 19, com política coronelista e tudo. Tudo é caro porque ninguém pode produzir. Não pode plantar, não pode criar galinha, não pode vender. Tem mais proibição que campo de nudismo. Uma terra sonolenta, um eterno velho-oeste sem bangue-bangue (Sem?). Uma cidade-dormitório, onde os jovens têm de fazer festas ilegais na rua porque não existe opção de lazer.
A municipalidade é dominada por turcos, os famigerados brimos. Com tantos paraguaios e japoneses, por que tão poucos políticos dessas etnias?
Essa bancada golpista, cassadora de prefeito, é que deveria ser cassada, pois junto com os pecuaristas feudais, representa o atraso e provincianismo do município.
Um morador foi visitado por esses agentes estalinistas por ter uma chocadeira elétrica, donde levava os pintos até sua chácara. Fica aquela forte suspeita de que são os granjeiros e pecuaristas os instigadores da lei complementar 36, de 22.12.2000, pra não termos opção além dos frangos saturados de hormônio e carne com corante e conservante.
Soube do caso dum garoto de 12 anos, que sofreu cirurgia porque desenvolveu seios femininos por causa dos hormônios granjeiros.
Senhores fiscais e legisladores: Faço voto de que vossos filhos idem.
Se o Brasil é um país sonolento, onde tudo cuuuuuusta mudar, deitado eternamente em berço esplêndido, Mato Grosso do Sul é sonolento ao quadrado e Campo Grande ao cubo! Um estado eternamente dominado por uma máfia pecuarista de estilo feudal que atravanca o progresso.
Se Mato Grosso do Sul fosse um país independente seria pior que o Paraguai, mas sem música nem folclore. Uma terra cosmopolita ao avesso: Tem de paulistano que é só cimento e asfalto, e já cheia de engarrafamento e inundação; de paraguaio o provincialismo; de nordestino o coronelismo; de ianque a ausência de cultura popular e coisas típicas.
A política municipal é tipo estado comunista europeu oriental. O cidadão não tem defesa contra o poder público e tudo funciona na base da denúncia. Se um vizinho detesta o outro é só ficar o denunciado aos órgãos de fiscalização sanitária. Os fiscais estão o tempo todo incomodando, mandam em teu quintal. Só faltam mandar dentro da casa também. Enquanto isso calçadas e terrenos abandonados viram matagal anos a fio.
Isso não é estado de direito. Cadê o ministério público? É preciso investigar a relação entre o poder público com os grande produtores e supermercados.
Aliás, quem fizer turismo aqui, só muito desinformado. Me lembro de, cerca de 1997, um colega contou sobre uma adolescente tailandesa que estava em Cuiabá e veio parar aqui. Que estava deprimida com a modorra da cidade e se desesperava pra ir logo embora. Eu disse:
— Pobre coitada! Vir a Campo Grande, decerto está cumprindo pena. Será que matou a mãe noutra encarnação?
O trânsito está um caos. Tira rotatória, põe semáforo, rotatória de novo. Parece que o engenheiro de tráfego (digo engenheiro mas não deve ter faculdade) é o filhinho do prefeito, de 7 anos, brincando com maquete. Agora a moda é rua que é contramão só uma quadra, desembocando em grande avenida. Em muitos pontos da cidade só se consegue sair do bairro dando muitas voltas. É uma cidade direitista, porque nas avenidas se anda quilômetros até se conseguir virar à direita, como se fosse rodovia.
Caros leitores, em tua cidade a coisa está truculenta assim? Quero me mudar aonde se possa viver em paz. Nem que seja a outro país.
Eis meus argumentos pruma ação, se estivéssemos em estado de direito:

Com relação à lei complementar 36, de 22.12.2000, da prefeitura municipal de Campo Grande, Mato Grosso do Sul, ordenando que as galinhas sejam erradicadas dos quintais e que dos quintais sejam recolhidos gravetos, folhas e frutos, a consideramos mais que inconstitucional (que não consta na constituição), anti-constitucional, pois viola a constituição.
● Essa política de terra-arrasada desertifica o solo, não permitindo que o húmus se forme em torno das plantas frutíferas, que se beneficia da umidade ali armazenada. Percebemos que neste último ano após a ação equivocada dos fiscais as plantas vêm perdendo exuberância, a frutificação diminuindo e se esparsando, não se podendo compensar no referente à umidade por causa do custo da água encanada.
● Pra cão já tem vacina, com 92 a 95 % de eficiência. A prefeitura alega não ser aprovada pelo ministério da saúde mas a vacina em animais tem de ser aprovada pelo ministério de produtos veterinários e é uma desculpa esfarrapada pra não vacinarem os cães.
Teria de vacinar só uma vez ao ano após as três doses iniciais.
● A lei discrimina os criadores de galinha. Mais coerente seria que obrigassem a erradicar os cães, já que as galinhas são fonte de subsistência, alimento, o mesmo não acontecendo aos cães, que são, pura e simplesmente, animais de estimação, muitas vezes de luxo, não servindo de alimento.
● A lei não prevê como evitar os pássaros, que aparecem a todo momento nos quintais, nem os gatos vadios.
● As galinhas são úteis pra combater escorpiões, aranhas e todo tipo de animal daninho. Todo fim de ano, com a chegada das chuvas, vemos reportagens mostrando casos no Brasil todo de pessoas apavoradas com praga de escorpião, sem falar na tão temida aranha marrom, epidêmica em Curitiba e que já encontrei aqui em casa. A erradicação das galinhas deixará muitas famílias humildes à mercê dessas pragas.
● A criação de galináceos é fonte de alimento opcional frente à carestia das fontes de proteína animal disponíveis no mercado, além de solução aos que querem ou precisam evitar o excesso de hormônio das criações industriais.
Sendo assim solicitamos decretar a anti-constitucionalidade e revogação dessa lei discriminatória, simplista, equivocada e truculenta.
● Sobre o cantor que deu um fora no tuíter, já soltando os cachorros, e era caso de homônimo (Me faz lembrar o discurso sobre a Amazônia, que até hoje os hispânicos atribuem ao cantor Chico Buarque, mesmo depois que esclareci que era o ministro Cristovam Buarque), é bom o pessoal ver o que a maconha faz ao cérebro...
● Saiu mais um toplezaço. A notícia disse que um senhor de cabelo branco já se empolgava mas retrocedeu quando um grupo começou a bradar pró perversões sexuais.
Uma passeata reivindicativa não pode admitir infiltração de oportunista. É uma ilusão, um erro, ficar aberto a tudo e a todos, achando que com isso exerce proselitismo e angaria mais simpatizante. A passeata tem de ser objetiva e focada num item, senão se dilui e se desmoraliza.
Na passeata de repente mostrar os seios? Mas a campanha não era pra se encarar o busto com naturalidade? Assim parece mais campanha pró-exibicionismo, o que seria exatamente o oposto.
Começou equivocado e persiste no limbo.
É por essas e outras que o toplezaço está cada vez mais desmoralizado.


A capa original em inglês (colocada como última página) foi enviada por Joanco

sábado, 2 de agosto de 2014

Mais um escã de Joanco da maravilhosa coleção Papai Noel, com Tom & Jerry, década de 1950. Na capa diz que é pra criança mas, diferente da enxurrada de obras infanto-juvenis bobocas e equivocadas que prolifera, vemos enredos muito criativos e elaborados, que encantam adultos (e crianças também). Essas bobageiras infantilóides que vemos aos montes são fáceis de avaliar: O que é ruim ao adulto é ruim à criança também.
O que lemos aqui são inteligentes contos em quadrinho. Monteiro Lobato ficaria encantado.
Obrigado, Joanco, pois é ainda mais trabalhoso escanear obra encadernada.

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

A página 3 (segunda página 3 enviada por Joanco) aparece repetida pra sanar o defeito
Aqui a versão castelhana, enviada por Joanco, como curiosidade
Comic book plus
non english books
spanish books

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Dois escaneios (1 traduzido) feitos quando o sítio Che Guavira não existia, colaborando com outros sítios
Dos escaneos hechos (1 traducido) cuando el sitio Che Guavira no existía, colaborando con otros sitios
Este escaneio traduzi ao castelhano (arquivo abaixo), antes de saber diagramar em fotoxope. Árduo processo.
Este escaneo traduje al castellano antes de saber maquetear en fotochope. Arduo proceso.

Formato grande. Não cabe no escâner. Cada página foi montada unindo dois pedaços. Árduo processo.

terça-feira, 29 de julho de 2014

O encadernado A gazeta juvenil, de 1948
Crônicas de Sampaulo
Se San Tiago vira Santiago. E já que vivemos uma zorra ortográfica...
De 23 a 26 de julho de 2014 um rápido passeio em Sampa. Faz tempo que queria fazer isso. Curitiba e São Paulo são duas cidades que podem ser visitadas em qualquer época, pois não falta atração.
E fui conhecer mais um correspondente. Nada menos que José Antônio Constantino, Joanco. O que temos em comum é bem mais do fato de eu morar na rua Constantinopla. Joanco queria me hospedar de qualquer jeito mas a seca, com racionamento dágua em Guarulhos e a visita a uma parente doente fizeram com que só nos encontrássemos na sexta, 25.
Na aerolinha foi a Gol o serviço de lanche é todo venda. Mas pensando bem, se a política é de baratear, isso é o mais lógico e certo. Como o frigobar de hotel agora: Se paga o que se pede. E parece que aboliram aquela frescura supérflua dos aeronautas sorrindo e cumprimentando os que entram ou saem do avião.
Não seria hora de se incluir no pacote de viagem o lanche antecipadamente? Na compra da passagem o viajante teria a opção de programar a refeição.
Na quarta, como rato-de-sebo que se preza, mal cheguei e já fui percorrendo os sebos. Fiquei no centro, perto da praça da Sé e da João Mendes (onde fica a livraria Messias). Nunca chegava ao Messias, pois sempre ia parando nos sebos no caminho. E é uma infinidade de sebo.
Na quinta fui ao Mercadão. Que espetáculo! E lá reclamam que nunca cresce, que prefeito vai, prefeito vem e nada muda! Como em Santiago, fiquei babando ante a imensa fartura de frutos-do-mar. Camarões enormes, lagostins, lagostas, grande variedade de peixe. Coisa que não existe aqui. No máximo uma parte disso nalguma temporada no Extra. Muitas frutas exóticas, das mais estrambóticas e com direito a degustação. Os vendedores dali deveriam dar um curso, aos daqui, de simpatia e indução a comprar. Um pastel de camarão já valeu um almoço.
Quase chegando ao Messias, atrás da catedral, um sebo me encantou pelos gatos em vez dos livros. O atendente acendeu a luz da seção do fundo, onde estão os livros de literatura, e ali estavam três lindos e enormes gatos de pelagem creme com lombo em tom rosa bem claro. Logo me lembrei de dona Adriana, que também tem três gatos e é malucamente apaixonada por felino. Afaguei os gatos. Sempre tem um mais chegado, já foi subindo em minha perna dobrada. Percorri as prateleiras e um gato estava dormindo na cesta sobre a mesa. Logo ouvi um miado insistente, um gato chamando o outro. Durante um instante procurei a origem do som, e continuava o miado. Quando olhei a cima, sobre uma pilha de pacotes, o gato miando. Mas era a mim que chamava! Queria mais afago (ou talvez por eu ser rato-se-sebo). E se desmanchava todo, querendo mais afago, igual aquela gata branca apaixonada cuja história já contei. Como não sei se gosto mais de gato ou de livro (deve ser meu lado meio Lovecraft), dividi a atenção em metade. Se o atendente não o tocasse de volta seria capaz de ir embora comigo. Disse ao atendente:
— Onde achaste esses gatos tão lindos?
— São do dono da livraria. Vieram filhotes há sete meses e já estão desse tamanho!
Joanco marcou na sexta me encontrar 9h no hotel. Me entregou uma sacola de feira cheia de preciosidade: 3 encadernados da antiga revista Detective, várias revistas X-9 e outras. Disse que crê ter só mais dez anos de vida a diante (Claro que é coisa de sua cabeça, pois é um idoso mais ativo que muito jovem) e que os filhos não se interessam por essas coisas. Nem é meu aniversário e já ganhar um presente assim! Ganham também meus leitores, porque vou escaneando... Dali fomos passear. Demos uma olhada nalguns sebos seus conhecidos, no caminho. Um nos chamou a atenção por causa dum livro aberto. Era uma encadernação de exemplares de 1948 de A gazeta juvenil, quadrinhos raros. Joanco disse Nem perguntarei o preço. Perguntei. R$ 200! Uma pechincha! Não hesitei. Não poderei escanear ainda porque é formato muito grande pra meu escâner mas logo resolverei isso.
Valeu!, Joanco. Já começou me dando sorte.
A rua Santa Ifigênia, com artigos eletrônicos e infinidade de loja. Joanco disse que não é de correria, gosta de ver tudo com calma. Eu disse:
— Lá sempre digo que quem for apressado que vá morar em São Paulo. Aqui direi o quê? Que vá morar em Nova Iorque?
Chegamos ao ponto de inspiração da canção de Caetano Veloso, a rua Ipiranga com avenida São João, a esquina mais famosa do Brasil.
Alguma coisa acontece em meu coração
quando cruzo a Ipiranga e a avenida São João
É que quando cheguei àqui nada entendi
da dura poesia concreta de tuas esquinas
da deselegância discreta de tuas meninas
Me mostrou a galeria Pagé, que é como o camelódromo em formato gigante. Disse que em Sampa tentaram fazer um camelódromo como aqui, retirando os camelôs da rua e legalizando tudo. Mas não deu certo. Por isso lá ainda tem aquela de Olha o rapa! Outra coisa que em Campo Grande é mais moderno é o transporte coletivo, ao menos quanto ao pagamento. Aqui é só cartão, lá é dinheiro mesmo. Pois é: Não devemos reclamar tanto assim de Campo Grande.
No metrô a passagem é um pequeno bilhete que é engolido pela catraca. Em Santiago é cartão recarregável: Na catraca um sensor ótico identifica o cartão, basta o postar na frente do sensor, e o mesmo cartão também paga ônibus e trem, tudo integrado. Nisso o sistema santiaguenho é muito mais moderno que o paulistano.
Fiquei pensando na retirada dos trilhos de Campo Grande. Comentei que pode ser uma falta de visão futurista colocar a feirona na antiga estação ferroviária. Vai que voltam os trens ou se precisar utilizar a área pra fazer metrô. Será um drama retirar todo mundo de lá. Que lástima o país sucatear a malha ferroviária. Foi o único país de projeção que cometeu essa estupidez. Enquanto a velha rodoviária, essa sim deveria virar uma expansão do Mercadão, já saturado tanto o espaço quanto o trânsito, fica no limbo ante a indecisão dos políticos.
No centro tem uma ladeira, que deve ser uma antiga encosta de morro, cuja inclinação deve beirar 45º. É cansativa até pra descer. Cadeirista ali, só se for suicida. Deveriam instalar uma escada-rolante.
Depois dum giro na cidade voltamos ao hotel, pra pegar a mala com os presentes a Joanco e fomos a sua casa. Um trecho em metrô, outro em ônibus, mais um trechinho a pé com ladeiras bem mais suaves carregando a pesada mala um em cada lado, e chegamos ao bairro Rio das pedras, onde mora com dona Sueli e um netinho.
Uma casa com discreta fachada com sobrado acessível via escada metálica no fundo, tão íngreme quanto a tal ladeira. Primeiro instalou uma encaracolada mas tirou porque nela não dá pra levar móvel ao alto. Na esquerda fica seu escritório, com estante e o computador. O resto é uma área de serviço coberta, onde a filharada e amigos se reuniam pra ver os jogos do Brasil na copa, com mesa de jantar e vista panorâmica da cidade. Já noite, vi o horizonte todo iluminado.
Me deu mais coisas: Uma enorme coleção Cinemin (a revista da sétima arte) e Fan-cine (fanzine sobre cinema), dois volumes de Tarzan em texto, Scaramouche, muitos devedês de filme e seriado.
Culminamos a noite com três sabores duma excelente pitsa que dona Sueli encomendou.
Encerrei o inesquecível encontro no meio da noite cantando a vinheta de encerramento do programa radiofônico que ouvia muito quando criança, Rancho do Zé-do-Brejo:
Com licença, minha gente
Desculpe a pouca demora
A prosa está muito boa
mas tenho de ir embora
Comprei muito livro. Qual a melhor opção? Pagar excesso de bagagem ou postar no correio? No sítio do correio, http://www2.correios.com.br/sistemas/precosPrazos/, fiz um simulacro do envio São Paulo–Campo Grande, PAC, 8kg, 36cm x 24cm x 18cm, R$39,80.
Gol (promocional): 8kg, R$34.
Imaginava que o excesso de bagagem seria muito mais caro que o frete do correio.


Escã de Waldir Rabello